16/03/2015

Resistir, na escola e pela escola

Este blogue é um espaço de toda a comunidade da Voz do Operário da Ajuda e em particular dos pais e encarregados de educação. Todos estão convidados a utilizá-lo em proveito da escola, e no usufruto da ampla liberdade que a Voz cultiva e que a Associação de Pais também procura incentivar na medida das suas possibilidades.

O texto que publicamos foi-nos enviado pela Marta, mãe da Alice e da Ana. Trata-se de uma reflexão sobre alguns dos temas que temos vindo a debater na escola, e que enfatiza a importância de algumas práticas pedagógicas que subsistem na Escola da Voz do Operário da Ajuda, como por exemplo o Acampamento de final do ano. O texto refere-se ainda o tema do teste intermédio do 2º ano do 1º ciclo, que volta a ser tema de debate e objecto intervenção por parte da Associação de Pais.

Resistir, na Escola e pela Escola
A resistência é uma coisa do povo que luta, dos artistas, das crianças, dos poetas. Dos que têm a força da vida e que a sentem ameaçada por qualquer instância que visa aniquilá-la. Um pouco de poesia, então. É preciso. As nossas sociedades supostamente desenvolvidas ditam desde há muito uma cantilena monótona com palavras de ordem como evolução e aquisição de saberes (porquê? para quê?) , incentivando desde que nascemos toda uma postura darwiniana, de adaptação social a um meio predefinido, cada vez menos humano e mais robótico. Os gestos estão previamente pensados, desde que nascemos até morrermos: podia perfeitamente escrever-se um único manual de instruções objectivo para a vida, patrocinado pelas altas marcas que dominam os mercados internacionais, divulgado pelo marketing subliminar que diariamente se vai instalando nas vidas difíceis de alguns de nós. Não estamos muito longe deste manual de instruções. Estamos assustadoramente perto. E por vezes damo-nos conta desta realidade, mas é dura, demasiado dura. Estamos cansados. Queremos poesia e sonho e queremos dormir, também, que o tempo escassa.

Entretanto, este macro-sistema do capital, como a fábrica do filme Tempos Modernos pretende domar o mais cedo possível as crianças, desumanizar os seus gestos genuínos, objectivá-las através da quantificação dos seus saberes e dos seus méritos, prepará-las, enfim, para serem também elas, um dia, futuros escravos que pensam que são reis.
As crianças, que ainda não perderam o sentido biológico da vida e que ainda carregam naturalmente consigo, em potência, as forças da criação, não vêem as coisas assim, e têm muito para nos ensinar.

O sistema de ensino que reduz a educação à transmissão do saber é posto em causa na Escola da Voz do Operário da Ajuda, uma escola que tem valores diferentes sobre o que seja aprender, ensinar. Que vê a criança como uma pessoa amplamente criativa e capaz de inventar soluções muito diversas para as várias situações de vida do dia-a-dia. A criatividade não é vista em termos de produção e desempenho, artístico ou científico, mas ela está, nas crianças, naturalmente em acto, em constante florescimento e é a base da aprendizagem nesta escola. Há dias houve uma reunião de matemática lá na escola que foi emblemática do que ali acontece. Foi uma apresentação feita pelas crianças do 1º ciclo aos pais sobre como aprendem a matemática. Fiquei maravilhada não só com a forma como aprendem mas sobretudo com a forma como nos apresentaram essa aprendizagem, fazendo connosco alguns dos exercícios e jogos que têm aprendido. Não é por nada, mas acho que se as reuniões pelas escolas fora fossem um pouco como esta reunião, o mundo seria um lugar mais feliz e mais justo. No final da reunião, a dada altura, as crianças mostraram-nos também a lista de objectivos, definidos pelo Ministério da Educação, uma espécie de rolo kafkiano, mas colorido, que era, como se ouviu um pai dizer, maior do que eles...  E brincámos com a lista kafkiana. Querer que as crianças cumpram listas de objectivos e de aquisição de conteúdos, a maior parte deles completamente alheios à felicidade e ao bem estar das próprias crianças só pode, a meu ver considerar-se perverso. Mas é uma realidade com que temos que lidar. Trata-se de lidar com um sistema de educação falso, que visa replicar uma sociedade de adultos, servir interesses pouco humanos, amputando as forças criativas, inventivas e poéticas da infância, as únicas que podem  recriar a nossa sociedade, que tanto precisa.

O acampamento : símbolo de uma aprendizagem não quantificável

Numa escola convencional um acampamento no final do ano lectivo poderia significar o fechamento do ano numa atmosfera de lazer e recreio, de brinde para a criançada que se portou como deve ser (fez os trabalhos de casa, teve notas satisfatórias, etc.). E agora vai curtir...  Nesta escola, o acampamento do final do ano que eu tive oportunidade de conhecer no ano passado, no qual a minha filha do 1º ano, na altura com 7 anos participou, não foi bem isto. Foi uma experiência iniciática extremamente enriquecedora e que simboliza na perfeição os valores em que assenta o projecto educativo desta escola. Em primeiro lugar o acampamento é um processo de aprendizagem construído activamente pelas crianças, com total apoio dos professores, e pela comunidade escolar. Sublinho aqui o papel extremamente activo, interventivo das crianças neste projecto (como aliás em todos os projectos desta escola). Em segundo lugar, o acampamento é mais do que “o acampamento propriamente”. Há um antes e há um depois que fazem parte do acampamento. Há toda uma planificação e uma expectativa, há uma vivência plena colectiva que é uma experiência comunitária extremamente criativa e organizada (coisas nem sempre fáceis de conjugar) e há, depois, uma reflexão ou, se quisermos, uma inscrição dessa experiência na vida, no pensamento e na acção da comunidade escolar. E há o que eu vi: os olhos da minha filha quando ela voltou do acampamento no ano passado. Olhos cansados, mas porque estiveram despertos: sentiram, buscaram, descobriram, cheios de uma energia e de uma alegria que me marcou (a mim, como mãe). Depois do acampamento não se tratou de arrumar a trouxa e dizer até para o ano. Depois daquela experiência intensa veio a inscrição dessa experiência na e pela comunidade escolar: pensar e reflectir, sentir e partilhar essa experiência em grupo e também com os pais e familiares. O acampamento organizado pela Escola da Voz do Operário da Ajuda é, para mim, enquanto mãe, sem nenhuma sombra de dúvida, uma experiência de aprendizagem que supera qualquer teste e qualquer preparação de teste intermédio. É uma experiência feliz, não quantificável. Que se sente e se manifesta, depois, nas vidas das crianças, na sua formação para a vida. Como mãe, defendo absolutamente que esta escola continue a ter as condições necessárias para levar avante este tipo de iniciativas. O mesmo não posso dizer dos testes intermédios do segundo ano. A meu ver, a existência destes testes (em qualquer escola mas) nesta escola em particular, é absurda. Absurda pelas circunstâncias caricatas já conhecidas, julgo eu, por todos os que estão ligados à Escola da Voz do Operário da Ajuda: uma escola com um projecto de ensino baseado nos princípios da escola moderna (para resumir um pouco), face à possibilidade dada pelo Ministério da Educação de optar pela inscrição ou pela não inscrição dos seus alunos neste teste, opta pela inscrição dos alunos no mesmo, obrigando naturalmente a que toda uma série de metas e objectivos alheios ao projecto educativo da Escola da Voz do Operário da Ajuda surjam como prioritários. Veja-se, preparar as crianças para o tal teste não é um objectivo prioritário do projecto de escola da Voz do Operário da Ajuda, mas, face ao absurdo da situação, as professoras estão na situação do malabarista: continuar o jogo, a dança das bolas no ar, sem as deixar cair. E tenho a certeza que não as vão deixar cair. Admiro profundamente a atitude lutadora e realista destas professoras que sem abandonar o projecto em que acreditamos, também não baixam os braços quando é preciso preparar as crianças para algo que só faz estragos mas que foi imposto por razões desconhecidas. Este ano, se o teste acontecer, pareceu-me ouvir dizer que o acampamento seria um pouco mais curto, por razões de logística de trabalho e de calendário. E para o próximo ano lectivo, como será?